MESTRE GILBERTO: entre bobos, talento e dom.

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Líderes do Movimento Bobo Gaiato com o saudoso Mestre Gilberto. Créditos: Thiago Souza

João Lemos

Nossa reportagem foi ao litoral Norte de Alagoas para conhecer uma das manifestações populares mais autênticas do povo, mantida pelos habitantes do povoado Tatuamunha em Porto de Pedras. Essa gostosa tradição presente nos festejos de momo perdeu no dia 26 de Julho deste ano o seu maior incentivador e Mestre, aos 71 anos, o mascareiro Gilberto Antônio da Silva, o famoso Mestre Giba ou Gilberto Tatuamunha comumente conhecido entre os familiares, amigos e clientes, o apelido é apenas um detalhe diante do grande legado deixado por este verdadeiro amante da arte popular.

O Mestre Gilberto, falecido em decorrência de problemas no coração, foi um artesão importante para a salvaguarda dos Bobos, iniciou sua produção de máscaras antes mesmo de completar 15 anos. Foi pedreiro por profissão, mas, a paixão pela arte o fez auditada, aprendeu a técnica sozinho com o intuito de brincar ao lado dos amigos numa remota época onde os afamados Bobos comandavam as ruas de Tatuamunha.

“Ele era um homem humilde, bom pai, bom marido e um bom amigo. Deixou-nos uma lição de vida importante, na hora da queda não abrir mão de se reerguer com os olhos fixos sempre no futuro e de cabeça erguida. Eu acompanho o trabalho do meu pai desde os 12 anos de idade, na hora da produção das máscaras, dos últimos tempos pra cá passei a produzir também, entendendo a importância de ajudá-lo na manutenção dessas nossas brincadeiras”, disse Luciano Silva (29), artesão e filho do Mestre Giba.

Os bobos são parte importante na tradição daquela localidade, impossível não olhar o mapa das tradições populares no Estado sem que nos esbarremos com a criatividade e irreverência mantida ao longo dos anos pelo saudoso Mestre Gilberto, um dos últimos detentores da técnica. Muitas gerações foram marcadas pelas enormes cabeças, as peculiaridades dessas máscaras são ainda a função dos moradores em produzi-las utilizando o barro, goma de mandioca, papel e tintas.

“Meu pai fazia máscaras para todos os lugares, vinha gente de todo canto comprar. Não tenho noção de quantas máscaras chegou a produzir, mas, foram muitas. Por aqui, só meu pai e o seu Cláudio ainda mantinha a tradição”. Relembrou Luciano.

Luciano é quem dará continuidade da arte na família. Créditos: Thiago Souza.

A retomada dos Bobos e o legado do Mestre Giba

Até a década de 1990 era possível ver a folia dos Bobos ocorrer de forma original com a participação maciça da comunidade. Dos anos 2000 em diante com a influência da era digital a prática foi sendo deixada de lado restando apenas à lembrança e alguns fazedores da brincadeira.

“As máscaras tradicionais com moldes de barro e preenchidas com papel e goma de mandioca foi sendo substituída pela de borracha, as andanças foram diminuindo desastrosamente. Felizmente Seu Gilberto deu continuidade às feitorias das máscaras”, destacou Thiago Souza, líder do Coletivo Bobo Gaiato.

Da necessidade de manter vivo o costume no Povoado, o sonho de três amigos, Alexandre Marlon, Thiago Souza e Sebastian Paiva se tornou realidade com a criação do Coletivo Bobo Gaiato, no ano passado. “Nosso objetivo é resgatar as andanças dos Bobos, fortalecer, a partir de agora a memória do Mestre Gilberto, estimular novos mascareiros e trazer de volta os que outrora faziam máscaras”, relatou Thiago.

Com o reconhecimento da resistência do Mestre Gilberto e seu ensino, o Coletivo conseguiu em Fevereiro de este ano realizar oficinas de confecção de máscaras com crianças e jovens da região, iniciando o trabalho de salvaguarda do saber e repasse feito a tempo pelo saudoso Mestre, sua criatividade fazia com que cada máscara fosse única.

“Thiago resgatou a cultura dos Bobos aqui no nosso Município com o Coletivo Bobo Gaiato, do futuro esperamos que a nossa cultura não seja mais esquecida como estava. Com o Coletivo se torna fácil à manutenção da brincadeira, é um incentivo que nos ajudará bastante a partir de agora”, finalizou Luciano Silva.

Agora mais do que nunca é preciso eternizar o legado deixado pelo Mestre Gilberto. Em parceria com os seus filhos o Coletivo tem o compromisso de manter viva a tradição, incentivando a produção das máscaras para as novas gerações que hão de vir.

A CONTINUAÇÃO DESTA ARTE SENDO GARANTIDA PELAS MÃOS DE LUCIANO!

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