EDIVAR VICENTE, o treme terra pilarense!

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Mestre Edivar Vicente Feitosa (74) e seus chapéus do Guerreiro Treme Terra Pilarense. Créditos: João Lemos.

João Lemos

“Guerreiro! Cheguei Nossa Senhora é nossa defesa!” É assim que começamos essa nossa conversa, pedindo permissão a Nossa Senhora e licença a todo “afigurá” para falarmos sobre o folguedo mais autentico do nosso estado. É isso mesmo, é o folguedo mais belo, rico e querido por todo alagoano, ele é nosso e devemos ter máximo respeito, defende-lo e valoriza-lo. Não existe conterrâneo do Auto de Guerreiro que não se identifique com a brincadeira e que não saiba a famosa peça,

“Guerreiro Cheguei agora,

Nossa Senhora é nossa defesa.

Ôh minha gente dinheiro só de papé,

Carinho só de mulé e capitá só Maceió!”

(Mestre Luís Góes)

“O Guerreiro é irmão do Reisado, primo do xangô, dos índios da montanha, das Baianas, da Taieira, do Toré de índio, do Caboclinho, do Bumba-meu-boi e do Quilombo do Pastoril”. (Mestre Benon – extraído do site do projeto Guerreiro por Natureza, Universidade Federal de Alagoas – Ufal).

De Acordo com Marcelo Cabral, o Guerreiro é um Auto natalino, de caráter dramático, profano e religioso. É uma junção de elementos dos antigos Reisados, dos pastoris, cheganças, quilombos, caboclinhos, e na opinião dos estudiosos do folclore se trata de um reisado moderno. Foi Arthur Ramos em seu livro “Folk-lore Negro do Brasil” – 1935 que faz a primeira referência sobre o Guerreiro, ele nos apresentou os elementos formadores do folguedo com muita segurança, “Elementos dos Congos e dos Caboclinhos (auto ameríndio correspondente), autos europeus peninsulares (Reis Mouros etc.), Pastoris e festas totêmicas de origem africana e ameríndia e, como elemento temático dominante, o Bumba meu Boi”.

Théo Brandão referenda que o Auto surgiu no fim da segunda década e inicio da terceira do século XX. “Não tenho lembranças de haver visto dançar “Guerreiros” antes de 1930. Parece que a imprensa não registra o folguedo anteriormente a essa época. Deve ser da década de trinta, pois, sabendo-se que a edição primitiva de “Folk-Lore Negro do Brasil” é de 1935”. Ele também reforça que, “o Guerreiro surgiu na Zona da Mata, em Viçosa, sob o viço dos importantes Reisados do um município”.

O Folclorista Pedro Teixeira de Vasconcellos no Boletim Alagoano do Folclore – 2001 considerou a festa do centenário de Viçosa, em 1931, como o marco da transição do Reisado para o Guerreiro. Ele também nos diz que quando o Reisado do Engenho Boa Sorte sob a batuta do Mestre Luiz Góes participou do Festival do IV Centenário da cidade de São Paulo, no ano de 1954, foram incorporadas outras novidades às peças e o sucesso foi total. A brincadeira ganhou personalidade e passou a ser conhecida fora do estado como Auto do Guerreiro, é de autoria do Mestre Luiz Góes a peça que cantamos acima.

Sede improvisada do Guerreiro Treme Terra Pilarense. Créditos: João Lemos.

Pertencem ao Guerreiro os seguintes personagens, Mestre, Contra-mestre, Rei, Rainha, Lira, Índio Peri e seus vassalos, dois Mateus, dois Palhaços, o Boi, embaixadores (dois), general, palhaços (dois), uma Catirina (às vezes), Sereia, Estrela de Ouro, Estrela Brilhante, Estrela Republicana, o General, a banda da lua, o Zabelê e o Jaraguá e as figuras como nos Reisados.

O figurino é muito rico em detalhes e colorido, imitação dos antigos trajes nobres da colônia, adaptados ao gosto e possibilidade econômica do povo. Os chapéus se diferenciam na medida de cada personagem, o Mestre e o Contra Mestre com os Embaixadores é quem usam as famosas fachadas decoradas com espelhos representando igrejas e Catedrais. Na base do tambor e do sanfoneiro o Mestre puxa a música e o grupo em coro repete, cada personagem tem sua “peça” específica com coreografia seguida de um entre meio.

Em Julho de 2019 o Conselho Estadual de Cultura junto a Secretaria de Estado da Cultura – SECULT concedeu por meio da resolução n° 002/2019 publicada no Diário Oficial do Estado o título de PATRIMÔNIO CULTURAL IMATERIAL DE ALAGOAS ao “Auto de Guerreiros” por constituir-se como um importante componente do folclore do Estado e referência histórico-cultural presente no imaginário coletivo, o registro está na Categoria III “Fontes de expressão, musicais, plásticas, cênicas e lúdicas”.

Em destaque o Mestre Edivar com sua própria obra, o Chapéu de Mestre. Créditos: João Lemos.

O TREME TERRA PILARENSE

Edivar Vicente Feitosa, natural de Santana do Mundaú – AL, é um dos últimos Mestres autênticos do Guerreiro Alagoano, desde 1980 reside na pacata cidade do Pilar – AL, à beira da Lagoa Manguaba. Sem qualquer incentivo por parte do poder público, ele vem resistindo ao tempo com o seu Guerreiro, o Treme Terra Pilarense. A sede construída com blocos de cimento nos fundos de sua residência na Chã do Pilar mostra o tamanho do sentimento aguerrido pelo Mestre de 74 anos.

Tudo é feito com muito amor, desde as bandeirinhas confeccionadas por ele mesmo que enfeitam a sede aos suntuosos chapéus em forma de catedrais. Além do dom de artesão, toca pandeiro, sanfona e violão herança que recebeu do pai, José Vicente Feitosa que além de Mestre era dono de um Guerreiro em Santana do Mundaú. O pai do Mestre Edivar vivenciou diretamente a transição dos antigos Reisados para os Autos de Guerreiro, “meu pai começou com um Reisado e depois passou a ensaiar um Guerreiro, isso ocorreu durante a guerra de 1940”, relatou.

O falecido José Vicente Feitosa, aprendeu a brincar Guerreiro com a Mestra Celsa Maria da Conceição em União dos Palmares – AL “Meu pai aprendeu com a Mestra Celsa em União, desde novinho o acompanhei nas brincadeiras, nasci numa fazenda e com 16 anos vim morar na Rua em Mundaú. Naquele tempo o Mestre era bom porque não tinha microfone, ali sim tinha Mestre de verdade, a gente escutava de longe a festança. Ali se o cabra não tivesse jeito pra improvisar passava vergonha”, disse Edivar. “Meu pai sabia ler e se diferenciava de muitos mestres que não sabiam. Copiava as partes e dava muito certo. Hoje todo mundo quer ser mestre, mas não é bem assim, tem que ter a vivência com os mestres velhos pra saber aprender, eu aprendi a cantar já agora depois de 45 anos de idade”.

O olhar de esperança do Mestre em acreditar na juventude. Créditos: João Lemos.

O Mestre já brincou de vários personagens dentro do folguedo como o Capitão de Campo, Zabelê e o Mandú. Quando foi morar no Pilar – AL se juntou aos antigos Mestres e ali descobriram seu talento, tem o Guerreiro Treme Terra Pilarense desde o final da década de 1990. “Quando foi um dia arrumei uma peça do meu pai e cantei pro Mestre Zé Farias e ele na mesma hora disse que eu dava pra cantar Guerreiro, depois o Mestre Zé Anjo disse a mesma coisa. A partir daí eu comecei a cantar umas peças sempre que era convidado. Agora o primeiro Guerreiro que eu puxei foi do Mestre Eduardo de Coruripe em uma apresentação no Coité do Noia, depois fiquei brincando no Guerreiro de seu Joana Ferreira aqui na Chã e agora tenho o meu próprio”, destacou.

Quando falamos em apoio à situação é a mesma, parece-nos que o problema muda apenas de endereço e o desabafo dos Mestres são os mesmos. De acordo com o Mestre Edivar a falta de apoio é constante, “apoio a gente não tem em nada, levantei minha sede com o próprio esforço, não temos apoio de ninguém, nem do poder público. Às vezes a gente não forma o grupo porque não se tem incentivo algum. É difícil, mais a gente não deixa a brincadeira morrer porque a gente gosta do Guerreiro, é cultura que a gente ama”.

E quando o amor fala mais alto, ninguém segura, assim é a vida folclórica dos Mestres de Guerreiro em Alagoas. Entre dificuldades e alegrias o folguedo vai mantendo sua chama acessa alumiando os mais novos que aderem a brincadeira sem pensar duas vezes. “Eu sinto falta da presença da juventude, eu brinco com algumas senhoras, mais tenho esperança que os jovens não vão deixar nosso Guerreiro se acabar, nosso Guerreiro é muito lindo, ele é da gente e a gente tem que respeitar mais, é o folguedo primeiro do nosso estado. Eu acredito que a juventude ainda vai nos surpreender com o Guerreiro”. Finalizou.

A sede do Guerreiro Treme Terra Pilarense fica localizado na Chã do Pilar junto ao Conjunto Padre Ernesto Amynthas Cavalcanti, quem quiser conhecer o Mestre e sua sede basta aparecer na região e pedir informação, é de fácil acesso e com certeza você vai se encantar com a história de vida do Mestre Edivar Vicente Feitosa.

Veja a entrevista na íntegra, acesse o link! Edivar Vicente, o treme terra pilarense!

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