DANÇA, uma brincante louvação a natureza do DIVINO!

0
66
Em destaque saias de fitas do Guerreiro Alagoano. Créditos: Luísa Estanislau.

João Lemos

As cores, o brilho, a expressão do semblante, o movimento cadenciado ou ligeiro do corpo define com muita a natural singeleza das nossas brincadeiras populares. Afinal, esse movimento lírico e poético arranca da população o seu mais vivo sentimento de alegria, como também, o direciona aos ritos solenes do devocionismo popular brasileiro. Tudo está interligado entre as tramas da nossa identidade cultural.

É bem verdade que muitas dessas danças foram aqui transplantadas da Europa, n’outras, da região central e ocidental da África. Essas manifestações numa verdadeira mistura cultural recebeu a influência indígena criando um traço todo nosso, mais tão nosso que até Deus quis ser brasileiro! (risos) Essa nossa dança não só expressa apenas alegria e brincadeira, ela também em harmonia com o transcendental reflete as nossas crenças e devoções ao Divino.

Os movimentos corporais precisam ser preservados imbuindo no guardião desse brinquedo à corresponsabilidade na sua manutenção e repasse. As danças do povo são fortes elementos artísticos que contribuem para o acervo do bem cultural-imaterial-religioso do Brasil. Elas são baseadas, principalmente, em tradições e costumes próprios da região em que estão inseridas.

Realizada de diferentes maneiras de acordo com o estado, ela pode ser feita em pares ou em grupos e a forma original de dançar e cantar permanece praticamente a mesma, porém, recebendo aqui e ali um novo elemento que agrega ainda mais a perpetuação dessas brincadeiras e a manutenção da Fé ali creditada. 

Mateus do Guerreiro Mensageiros de Padre Cícero. Créditos: Luísa Estanislau.

Dança e Fé

A dança vai ao íntimo do homem buscar os sentimentos mais mimosos do prazer e traduz a nossa fé. O Coco nascido em Alagoas na Serra da Barriga e hoje presente em todas as regiões do Nordeste trás no sacudido dos pés e na curvatura do colo peitoral, por exemplo, algo bem semelhante ao que encontramos nos ritos sagrados do candomblé quando um participante recebe a sua entidade. Isso também é possível ser encontrado no Cavalo Marinho quando o mestre passa por uma prova arriscada diante dos brincantes e do público. (Vimos em certa oportunidade o mestre do Cavalo Marinho Estrela de Ouro de Condado-PE com seu bailado se deitando em cacos de vidro e como numa profissão de fé sair ileso após pedir ajuda de um “caboclo”).

Com a mesma ênfase profano-religiosa outras brincadeiras do Brasil vão reinventando suas danças sem perder a essência, tão pouco, a tradição repassada de pai pra filho. No Guerreiro, auto genuinamente alagoano a presença da jurema, árvore sagrada dos povos indígenas no Norte e Nordeste do Brasil é cantada e recantada por mestres e brincantes, da mesma forma, a importância do culto da Jurema nas religiões Afro está para a Paraíba e Pernambuco, assim como o de Irocô está para a Bahia. Tudo isso é expresso com movimentos aglunares e milimetricamente conectados onde a mente e o corpo louvam o Divino ao tempo que brincam.

O molejo brasileiro

Sempre há de se ver nas danças do povo de norte a sul do país o caráter profano-louvativo. No Maracatu de baque ou de lança, nos Baianados ou Cambindas, no Samba de Roda, do Marajó, de Matuto ou no Jongo, no Carimbó ou no Siriri, na Taiera ou na Chegança, no Pastoril ou no Coco, no Maneiro Pau ou no Fandango, na Barca ou na Marujada, nas Caboclinhas, no Cavalo Piancó ou no Mané do Rosário, nos Bandos de Santa Luzia ou no Boi Mamão, nos Reisados ou Cavalhadas, etc. Enfim, das abrições de porta, ao Frevo para as danças sincronizadas das tradições Gaúchas, haveremos sempre de sentir no fulgor da vida o lirismo sacro-popular expresso através dos corpos que se unem pelo desejo de brincar e de homenagear o Divino. Aqui está a Dança Brasileira, inspirada nos ritmos e crenças vai se renovando, sem perder a tradição como já dissemos. Velhos mestres vão orientando os novos protagonistas dessas brincadeiras numa verdadeira ode sacerdotal. Feito sangue nas veias, essa mítica realidade de viver vai se renovando, gerando sempre a energia vital de nossas danças populares. E se acaso Deus for de fato Brasileiro?! Ele brinca o Toré dos Pataxós aos passos bailados do Forró no sertão de Caicó.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui